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This Is Me in a Nuttshell

... que é como quem diz, esta aqui sou eu. Rodeada de livros, com música nos ouvidos, com cinema ou séries no ecrã da TV ou Youtube no computador. Não é difícil me fazer feliz. Bem vindos :)

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22
Mai17

O Crime do Padre Amaro - Cenas da Vida Devota

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Autor: Eça de Queirós


Editora: Livros do Brasil


Ano: 2008


 


Amaro Vieira nunca quis ser padre mas por decisão da marquesa que o educou desde a infância, acabou por ser inscrito no seminário. Na sua visão, a vida de padre iria priva-lo daquilo que mais queria: estar com mulheres, abraça-las, envelhecer ao lado de alguém, ter uma família. A disciplina do seminário transformou-o numa espécie de autómato, apesar de por dentro, o desejo carnal borbulhar intensamente. Após a ordenação, Amaro é colocado numa aldeia muito pobre no meio da serra, habitada por pastores e pouco mais. Depressa se cansou e tentou a sua sorte junto da família da marquesa pois a sua influência poderia chegar ao ministro e dali ao bispo. Pouco tempo depois, Amaro chegava a Leiria, a sede do bispado.


Na cidade, gozava da orientação do Cónego Dias, seu mentor no seminário, que logo tratou de lhe arranjar uma casa respeitável para morar. A solução foi a casa da D. Augusta Caminha, mais conhecida por S. Joaneira, uma viúva muito devota, mãe de uma bela jovem, a Amélia. Desde o primeiro momento que Amaro e Amélia não ficaram indiferentes um ao outro. Com o avançar das semanas, a convivência ao serão e a tensão entre os dois ficava cada vez mais difícil de disfarçar perante quem frequentava esses serões.



"Ao pé dela, muito fraco, muito langaroso, não lhe lembrava que era padre; o Sacerdócio, Deus, a Sé, o Pecado ficavam em baixo, longe: via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como de um monte se vêem as casas desaparecer no nevoeiro dos vales; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordiscar-lhe a orelhinha."(pág.103)



Quem não achou graça a essa tensão foi João Eduardo, um jovem escrivão do cartório que estava de namoro com Amélia. Num acesso de ciúmes, publica um comunicado no jornal onde expõe todos os podres que sabe sobre os padres da zona. O escrito caiu como uma bomba e alguns dos citados não descansaram enquanto não descobriram o autor do texto. João Eduardo caiu em desgraça e os amores de Amélia e Amaro incendiaram-se. Um amor doentio e desenfreado que acaba em tragédia.


 Podemos atribuir ao escritores da Geração de 70, da qual fazia parte Eça de Queirós, a introdução do movimento realista em Portugal. A primeira grande obra a fazer montra dele foi, precisamente, "O Crime do Padre Amaro". O foco principal da obra é a crítica dura e directa à Igreja Católica. Os jogos de aparências, o moralismo vazio dos dogmas e costumes religiosos ou as contradições entre a doutrina que os padres pregam e aquilo que realmente fazem são passados aos leitores através de várias personagens.



"Era, pois verdade o que se cochichava no seminário, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cinquenta anos pároco da Gralheira. "Todos são do mesmo barro", todos são do mesmo barro, - sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminários, dirigem as consciências envoltos em Deus como numa absolvição permanente, e têm no entanto numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das atitudes devotas e da austeridade do ofício, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!" (pág.110)



Outro dos grandes temas presentes no livro debruça-se no aspecto mais social e económico. Eça de Queirós critica as diferenças entre as populações e o clero. Se nas cidades se notava pouco, nas pequenas aldeias notava-se bastante como a população passava grandes privações enquanto que os padres viviam vidas fartas e regaladas. Mas neste aspecto, a grande crítica vai para o comportamento das pessoas. Eça de Queirós aponta um dedo feroz a toda a maledicência, bisbilhotice, futilidade, superficialidade e vazio interior da pessoas. Aponta também ao desejo do poder através da religião, ao emprego da religião como força política e à crítica ao culto da aparência e da convenção.


E todo este enredo é embelezado depois por um uso brilhante do naturalismo, tão característico de Eça de Queirós. As descrições detalhadas das serras esfriam-nos os ossos até ao tutano. A visão dos campos trazem ao imaginário o perfume das flores. As imagens da Praia da Vieira traz o cheiro a maresia aos sentidos.

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