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This Is Me in a Nuttshell

... que é como quem diz, esta aqui sou eu. Rodeada de livros, com música nos ouvidos, com cinema ou séries no ecrã da TV ou Youtube no computador. Não é difícil me fazer feliz. Bem vindos :)

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O Crime do Padre Amaro - Cenas da Vida Devota

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Autor: Eça de Queirós

Editora: Livros do Brasil

Ano: 2008

 

Amaro Vieira nunca quis ser padre mas por decisão da marquesa que o educou desde a infância, acabou por ser inscrito no seminário. Na sua visão, a vida de padre iria priva-lo daquilo que mais queria: estar com mulheres, abraça-las, envelhecer ao lado de alguém, ter uma família. A disciplina do seminário transformou-o numa espécie de autómato, apesar de por dentro, o desejo carnal borbulhar intensamente. Após a ordenação, Amaro é colocado numa aldeia muito pobre no meio da serra, habitada por pastores e pouco mais. Depressa se cansou e tentou a sua sorte junto da família da marquesa pois a sua influência poderia chegar ao ministro e dali ao bispo. Pouco tempo depois, Amaro chegava a Leiria, a sede do bispado.

Na cidade, gozava da orientação do Cónego Dias, seu mentor no seminário, que logo tratou de lhe arranjar uma casa respeitável para morar. A solução foi a casa da D. Augusta Caminha, mais conhecida por S. Joaneira, uma viúva muito devota, mãe de uma bela jovem, a Amélia. Desde o primeiro momento que Amaro e Amélia não ficaram indiferentes um ao outro. Com o avançar das semanas, a convivência ao serão e a tensão entre os dois ficava cada vez mais difícil de disfarçar perante quem frequentava esses serões.

"Ao pé dela, muito fraco, muito langaroso, não lhe lembrava que era padre; o Sacerdócio, Deus, a Sé, o Pecado ficavam em baixo, longe: via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como de um monte se vêem as casas desaparecer no nevoeiro dos vales; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordiscar-lhe a orelhinha."(pág.103)

Quem não achou graça a essa tensão foi João Eduardo, um jovem escrivão do cartório que estava de namoro com Amélia. Num acesso de ciúmes, publica um comunicado no jornal onde expõe todos os podres que sabe sobre os padres da zona. O escrito caiu como uma bomba e alguns dos citados não descansaram enquanto não descobriram o autor do texto. João Eduardo caiu em desgraça e os amores de Amélia e Amaro incendiaram-se. Um amor doentio e desenfreado que acaba em tragédia.

 Podemos atribuir ao escritores da Geração de 70, da qual fazia parte Eça de Queirós, a introdução do movimento realista em Portugal. A primeira grande obra a fazer montra dele foi, precisamente, "O Crime do Padre Amaro". O foco principal da obra é a crítica dura e directa à Igreja Católica. Os jogos de aparências, o moralismo vazio dos dogmas e costumes religiosos ou as contradições entre a doutrina que os padres pregam e aquilo que realmente fazem são passados aos leitores através de várias personagens.

"Era, pois verdade o que se cochichava no seminário, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cinquenta anos pároco da Gralheira. "Todos são do mesmo barro", todos são do mesmo barro, - sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminários, dirigem as consciências envoltos em Deus como numa absolvição permanente, e têm no entanto numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das atitudes devotas e da austeridade do ofício, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!" (pág.110)

Outro dos grandes temas presentes no livro debruça-se no aspecto mais social e económico. Eça de Queirós critica as diferenças entre as populações e o clero. Se nas cidades se notava pouco, nas pequenas aldeias notava-se bastante como a população passava grandes privações enquanto que os padres viviam vidas fartas e regaladas. Mas neste aspecto, a grande crítica vai para o comportamento das pessoas. Eça de Queirós aponta um dedo feroz a toda a maledicência, bisbilhotice, futilidade, superficialidade e vazio interior da pessoas. Aponta também ao desejo do poder através da religião, ao emprego da religião como força política e à crítica ao culto da aparência e da convenção.

E todo este enredo é embelezado depois por um uso brilhante do naturalismo, tão característico de Eça de Queirós. As descrições detalhadas das serras esfriam-nos os ossos até ao tutano. A visão dos campos trazem ao imaginário o perfume das flores. As imagens da Praia da Vieira traz o cheiro a maresia aos sentidos.

Um Momento Inesquecível

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 Autor: Nicholas Sparks

Editora: Editorial Presença

Ano: 2004

 

London é um rapaz de 17 anos. O pai é um homem conhecido, membro do Congresso Americano, o que faz com que Landon seja um jovem com posses, muito popular, com alguns vícios e maus hábitos. As notas não são as mais famosas mas por "ideia" do pai, candidata-se à presidência da associação de estudantes porque isso ficaria bem no currículo. Também por causa das notas, Landon increve-se nas aulas de teatro. Para esse ano, a peça a levar à cena seria a escrita pelo Rev. Sullivan, e a protagonista obviamente seria a filha, Jamie. 

"Era, por outras palavras, o tipo de rapariga que nos fazia parecer maus, e sempre que ela olhava para mim, não podia deixar de me sentir culpado, mesmo que não tivesse feito nada de errado." (pág. 25)

Jamie era diferente de todas as outras raparigas da escola. Em vez de calças de ganga ou minissaia, Jamie preferia a sua saia por baixo do joelho em xadrez e a sua camisola castanha. Em vez de ir para o café ou às compras, passava o seu tempo livre com as crianças do Orfanato da cidade. A sua Bíblia, um livro muito especial, era como se fosse a sua melhor amiga, acompanhando-a para onde quer que fosse. A sua simpatia era alvo da chacota de toda a gente na escola.

O outro protagonista da peça acabou por ser Landon e com o avançar dos ensaios, e contrariamente aos desejos dela, os dois começam a aproximar-se ao ponto de declararem os sentimentos que tinham um pelo outro. Mas Jamie esconde um segredo que deixa Landon sem reacção numa primeira fase. Passado o choque inicial, Landon promete a si próprio, mas também ao pai dela, que tudo fará para a fazer feliz, seja por muito ou por pouco tempo.

"Se Jamie me ensinara alguma coisa durante aqueles ultimos meses, foi que era através dos actos - não dos pensamentos ou das intenções - que se julgavam os outros, (...)." (pág. 144)

Apesar de ser um livro marcadamente voltado para o romance, neste caso um romance de adolescente, existe no enredo mensagens bem mais densas do que um simples "namorisco" de miúdos. Uma é a Fé. Todos nós, em algum momento da vida, nos questionamos sobre aquilo que poderá ser o destino ou os desígnios de Deus, como tantas vezes a Jamie evocava. Aqueles eventos já estariam "escritos" ou somos nós que traçamos o nosso próprio caminho? A outra está relacionada com as diferenças entre as pessoas e a aceitação entre elas. Tomos somos diferentes e ninguém tem o direito de menosprezar quem quer que seja só porque não pensam, ajem ou se parecem como nós. Isso faz também reflectir até que ponto essas mesmas diferenças são factores de aproximação entre as pessoas. Será que a velho ditado que diz que os opostos atraem-se é mesmo verdade ou para que duas pessoas de personalidades diferentes se possam entender é preciso mais do que mera atracção? São linhas que nos deixam a refletir...

A Casa

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Autor: André Vianco

Editora: Novo Século

Ano: 2002 

"O alívio para o coração atormentado está aqui"

Num momento mais depressivo e terrível das suas vidas, um pequeno cartão com esta misteriosa frase e uma morada chegou às mãos de 4 estranhos. Rosana vivia angustiada com a morte do marido, provocada, segundo ela, pela traição da própria. Hélio vivia consumido pela culpa de nunca ter aceitado a filha doente e que a levou ao suicídio. Ismael era um viciado no trabalho porque prometeu a si mesmo que não ia ser um falhado como o pai, que faleceu pouco depois de uma enorme discussão entre eles. Leonora, ou Leon, vivia consumida pela desilusão de ter sido posta fora de casa pelos pais quando assumiu a sua homossexualidade.

Aquele pequeno cartãozinho iria leva-los a todos a uma casa amarela, onde todos os dias se amontoava gente à porta em busca do mesmo, alívio. Alívio esse que chegaria em forma de perdão.

"Cada um de vocês encontrará o tesouro mais precioso de suas vidas atrás dessas portas... (...) cada um de vocês terá o direito de tentar de novo. Terá direito a uma segunda chance. Não vão desperdiçar esse presente do destino; são poucos que o têm. Tudo poderão fazer. Poderão mudar. Viver. (...) Peçam desculpas. Perdoem. Salvem suas vidas. Curem seus corações. Nem mais. Nem menos."

Todo o enredo gira em torno desse conceito, o do perdão. De dar segundas oportunidades. Poderá até dizer-se da hipótese de redenção. É também um enredo que sai um pouco da esfera habitual da escrita de André Vianco, conhecido pelos seus livros com uma temática mais ligada a criaturas do mundo do fantástico como vampiros, anjos ou demónios. Não deixa de ser uma temática sobrenatural mas entra mais no capítulo do espiritismo, sem cair nos esteriotipos a ele ligados.

As páginas fluem muito levemente, o que pode parecer estranho com uma temática tão ligada a sentimentos negativos. Isso faz com que a mensagem se cole à nossa pele. Lembra-nos que todos nós temos um fim à vista e que não devemos perder a oportunidade de falar com as pessoas de quem gostamos, dizer-lhes o quanto gostamos delas, o quanto nos fazem falta quando não estão perto. Que não devemos deixar nada por dizer, sob pena de mais tarde nos arrependermos quando elas desaparecem das nossas vidas. São páginas que nos deixam, definitivamente, a pensar no sentido da nossa vida.

Contos da Montanha

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Autor: Miguel Torga

Editora: Booket

Ano: 2007 

 "Os montes eram um gosto vê-los. Cobertos de urze, roxos, tinham perdido a força bruta que o Janeiro lhes dera. O céu, sem nuvens, varrido, cobria-os como um tecto de cetim. E os ribeiros, que os sulcavam de frescura, pareciam veias fecundas dum grande corpo deitado." (de " A Ladaínha", pág. 105)

As montanhas são o ponto em comum a todos os contos, não fosse Miguel Torga também ele filho dessas montanhas. Apesar de serem descrições duras, não deixam de ter a beleza das coisas simples. Cada conto funciona por si mas ao mesmo tempo funcionam como um todo. Como se fossem capítulos de uma história e de uma vivência comuns. Todos partilham as agruras das fragas dos montes, as condicionantes do clima na agricultura, a falta de alimento. Todos partilham as superstições, as tradições e os costumes.

"A Maria Lionça, essa, ficou. Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam de homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória,a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação, que distribuia o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas de um baralho." (de "Maria Lionça", pág.16)

As personagens que vamos conhecendo e as situações que vamos vivendo nestas linhas são aquelas que esperamos encontrar num meio rural. As mulheres viúvas e experientes a quem toda a gente tem respeito e pede conselhos. As romarias onde nasceram tantos namoros que mais tarde darão em casamentos. As invejas que só com uma bruxa acabam resolvidas. O apego às devoções na hora do aperto. A resignação das pessoas nos seus modos de vida porque é assim que Deus quer.

Até os diálogos expressam essa ruralidade. O modo de pensar muito terra-a-terra, as cantigas que ao desafio ou em harmoniam inundavam os campos na hora do trabalho, os ditados e as frases ditas pelos antigos.

São retratos de uma realidade que pode parecer distante mas que em alguns pontos, em vales escondidos e fragas menos exploradas, ainda vai subsistindo.

A Correspondência de Fradique Mendes: Memórias e Notas

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Autor: Eça de Queirós

Editora: Livros do Brasil

Ano: 2005

 

" De sorte que dele bem se pode dizer que foi o devoto de todas as religiões, o partidário de todos os partidos, o discípulo de todas as filosofias - cometa errando através das ideias, embebendo-se convictamente nelas, de cada uma recebendo um acréscimo de substância, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante" (pág. 68)

Assim é descrito Carlos Fradique Mendes, homem das letras, das filosofias e dos prazeres da vida que começa a fazer furor nos jornais portugueses em 1869. É um homem viajado, culto, conhecedor das mais variadas teorias filosóficas. Pode agradecê-lo à avó, D. Angelina Fradique, que o criou desde tenra idade nos Açores, e que não se limitou a dar-lhe apenas a educação habitual. Os vários professores que o acompanharam deram-lhe um vasto conjunto de conhecimentos de todos os quadrantes.

A primeira parte do livro funciona um pouco como uma apresentação desta personagem. Personagem essa irreal, criada pela Geração de 70 ou Geração de Coimbra, um movimento académico do séc. XIX que veio trazer novas tendências à sociedade, desde a política à literatura. Um dos seus maiores contributos foi a introdução da corrente literária realista, do qual foram prolíferos Ramalho Ortigão ou o próprio Eça de Queirós. Nos capítulos mencionam-se personalidades reais a quem mais tarde foram escritas cartas, num exercício de extrema complexidade e brilhante execução.

Já a segunda parte do livro debruça-se sobre as cartas. As cartas a senhoras são enviadas ora à Mme de Jouarre ou à sua amada, Clara. Já as cartas enviadas a homens dividem-se entre poetas, engenheiros, políticos, jornalistas.

“Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.” (pág. 216)

Os temas abordados também são variados. Desde a religião ao estado da sociedade portuguesa, Fradique Mendes não se coíbe de lançar as suas provocações à moral instituída. E neste momento, o leitor, mesmo sem conhecer a origem desta pessoa, fica a pensar se realmente aquela pessoa existe ou se há ali dedo de alguém mais.

 

 

Sem Sangue

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Autor: Alessandro Baricco

Editora: Biblioteca Sábado

Ano: 2009

 

 Num periodo pós-guerra, Manuel Roca, um médico, refugiou-se numa quinta com os dois filhos. Quando sente que andam atrás dele, prepara com o filho a defesa da casa e esconde a filha, Nina, num alçapão coberto com cestas de fruta.

"Gostava de estar assim. Sentia a terra, fresca, debaixo do flanco, a protejê-la - não podia traí-la. E sentia o próprio corpo recolhido, fechado sobre si próprio como uma concha - gostava de o sentir -, era casca e animal, abrigo de si própria, era tudo, era tudo ara si própria, ninguém poderia fazer-lhe mal enquanto continuasse naquela posição - reabriu os olhos, e pensou Não te mexas, és feliz" (pág. 19)

Nina assiste a tudo pelas frinchas do soalho. O relato daqueles momentos é violento e assustador. O ódio que se sente em cada palavra gritada está mais do que presente.

Anos depois, Nina encontra-se com o dono de um quiosque, um homem já velho. Era Tito, o rapaz que naquele dia lhe poupou a vida. Sentados numa mesa de café, Nina tenta perceber o porquê de tudo o que aconteceu. Mas o relato desses momentos é confuso. Baricco salta constantemente de plano, de personagens. Ora foca-se em Nina, ora passa para Tito, para quem os vê dentro do café.

"Então pensou que, incompreensível que a vida seja, provavelmente a atravessamos com o único desejo de regressar ao inferno que nos gerou, e de habitar ao lado de quem, uma vez, nos salvou desse inferno." (pág. 154)

O final é inesperado. Com o encontro de Nina e Tito, poderia achar-se que a vingança iria tomar ali forma. Baricco surpreende-nos ao dar uma moralidade diferente ao enredo. Mostra-nos que mesmo com as adversidades da vida, é possível perdoar e avançar.

A Lua de Joana

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Autora: Maria Teresa Maia González

Editora: Pi

Ano: 2011

 

O funeral de Marta estava ainda fresco na realidade de todos. A família navegava entre a tristeza e a revolta, os amigos estavam incrédulos e a Joana, sua grande amiga de infância sentia-se desamparada. Não queria escrever um diário, achava demasiado mórbido. Não sabia com quem conversar sobre os assuntos da sua idade. Por isso começou a escrever cartas à amiga. Muitas delas escritas no ponto central do seu quarto, a sua lua.

"(...) é uma meia-lua de madeira (branca, claro) que está suspensa do tecto por uma corrente, mesmo no meio do quarto. (...) Quando quero pensar, coloco-a em posição de quarto crescente e, quando estou triste, rodo-a para quarto minguante e sento-me até que a tristeza me passe." (pág. 10)

Joana, que sempre foi boa aluna, começa a sentir que está a perdeu as suas pedras de apoio. A mãe sempre ocupada com a loja, o pai sempre ausente no consultório, o irmão sempre ausente na caverna a que chamava quarto. Marta e depois a avó Ju que ficarão ausentes para sempre. Todas essas ausências começam a ficar visíveis no seu dia-a-dia. A falta de paciência para os estudos, a falta de interesse pelos hobbies que tinha.

O enredo do livro não deixa dúvidas. Fala-se em droga e no quão fácil é cair no vício. Qualquer viciado terá o discurso da Rita na ponta da língua, que sabe parar a tempo. O problema é que nunca parar, nem a tempo nem fora de tempo. Mas fala também de um fenómeno cada vez mais recorrente e chocante.

"Os adultos não estão para se chatear, é um esforço muito grande para eles. Aliás, o meu pai tem outra justificação: ele não tem tempo para se chatear. Uma discussão, um ralhete, um sermão, são coisas que podem durar horas, e ele não se pode dar a esse luxo, tem coisas muito importantes para fazer..." (pág. 106)

Pais que embrenhados no corre-corre do dia-a-dia não se dão conta das mudanças na vida dos filhos. Pais que só se dão conta que os filhos estão mudados quando as notas são espelho disso. Pais que acham que o assunto vai para debaixo do tapete se levarem os filhos ao psicólogo.

Maria Teresa González tem um condão na sua escrita de dar umas quantas lições de vida. Este "A Lua de Joana" não fica atrás.

O Carteiro de Pablo Neruda (Ardente Paciência)

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Autor: António Skármeta

Editora: Leya (Colecção BIS)

Ano: 2011

"As palavras temos de saborea-las. Temos de deixá-las desfazerem-se na boca." (pág.91)

Eis uns dos motivos pelos quais Mário Jiménez admirava Pablo Neruda. As suas metáforas traziam-lhe sentimentos que ele não conseguia definir e proporcionava-lhe uma visão diferente das pequenas coisas mundanas. Foi com alguma surpresa que o jovem recebeu a notícia, ao candidatar-se ao lugar de carteiro da ilha, que o seu único cliente seria precisamente o poeta. Logo na sua cabeça começaram a formar-se fábulas e amizades estreitas, sempre pautadas pelas metáforas.

E por causa das metáforas, Mário perde-se de amores por Beatriz, a filha da viúva González, concessionária da taberna da ilha. Mário pede ajuda a Neruda, tentando conquista-la com poesias e metáforas (sempre as metáforas), mas quem não vai nas cantigas das metáforas é a viúva.

"- Não há pior droga que o blá-blá. Faz uma taberneira de aldeia sentir-se como uma princesa veneziana. E depois, quando chega a hora da verdade, o regresso à realidade, reparas que as palavras são um cheque sem cobertura. Prefiro mil vezes que um bêbedo te apalpe o cu no bar, a que te digam que um sorriso teu voa mais alto que uma mariposa!" (pág. 54)

Mas com a época conturbada que o Chile atravessava nessa altura, depressa o livro salta da poesia para a política. As greves, as rebeliões, toda uma oposição cerrada a Salvador Allende que viria a ser deposto e assassinado poucos dias antes da morte do próprio Pablo Neruda. E é aí que o texto começa a perder brilho. Se falamos de Neruda, quer-se metáforas e poemas, não façanhas e convulsões políticas. Espera-se ouvir falar dos seus momentos de recolhimento junto ao mar na Ilha Negra, não dos dias que passou como embaixador em Paris. E tudo isto faz com que o leitor espere muito mais do que aquilo que o livro realmente dá, deixando-lhe um sentimento estranho no peito.